Por Victor Cremasco
- Alô? Quem fala?
- É o Zé, quem tá falando?
- Styxchum, deve ter sido engano.
- Como é? Repete.
- Styxchum. S-t-y-x-c-h-u-m.
- Ah!
- Só uma pergunta, de onde você é?
- Sou de São Paulo.
- Fala sério, não tenho o nanodia todo.
- Você acha que tô brincando?
- Lógico, deve ser um desocupado. Você acha graça?
- Qual o problema de morar em São Paulo?
- Nenhum. Não vou perder nanotempo com você no nanofone.
- Não tô entendendo nada, vou desligar. Você é…
- Ei, calma! Em que ano você vive?
- Ai, meu Deus! 2008, meu amigo. 2008!
- Hum, tá explicado. Ocorreu uma interferência temporal no meu nanocelular.
- Tá, sou o Zorro! Tchau.
- São 59 anos de distância entre nós!
- Agora sou o Hércules!
- Calma, calma. 2008? Posso provar, deixa eu tomar meu nanolivro de história.
- Lá vai piada.
- Anota aÃ: O Lula sai do poder e o Clodovil assume a presidência (Frank Aguiar vice da chapa). O Irã inicia a terceira grande guerra em 2012, lançando uma nanobomba atômica sobre o Texas, matando milhões.
- Já chega, ficou feliz?
- Puxa cara, achei que você falaria comigo. Eu poderia te contar as coisas e você ficaria rico com nanoapostas e nanodescobertas. Por exemplo, fala uma coisa que você gosta de fazer.
- Eu gosto de ler.
- Bom tema! Eu também, mas não leio. Eu não preciso. Deixa eu te contar: os nanolivros agora são vendidos em nanocápsulas ou nanossopas em pó. Basta engolir e você sabe tudo e um pouco mais. Sabe como é, questão de nanotempo.
- Nossa! Quanta criatividade, não?
- É. Imagino que vocês pensem em como será o mundo em 2067. Não é?
- Uh, todos os dias.
- Quem diria. Você pega a nanoreceita do Drummond, do Bilac e do Machado, passa na livraria e compra (só não pode comprar as do Coelho pois foi provado que causam efeitos colaterais). Depois, vai de nanomotor pra sua nanobolha e pode até trabalhar lá, mandando nanofax-lasers. Ah, nanobolha pois algumas casas agora possuem o opcional de flutuação, dada a falta de nanoespaços. É até mais legal.
- Cara, você é um nanobelo de um nanomaluco!
- Olha só! Você tá ficando bom nisso. Gosta de teatros, museus também?
- Sim, gosto. Só uma pergunta: vai demorar pra acabar a piada?
- Que piada? Não existem mais teatros nem museus. Agora você compra uma nanotela e o que quiser assistir por nanofone, desde os originais cantos homéricos até os monólogos da vagina. Assiste tudo no nanossofá. O ruim é que não existe o contato com o ator ou a peça exposta. Fica tudo muito vago.
- Ah, entendi. No mais?
- Ah, no mais eu poderia ficar falando muitas coisas pra você, mas acho melhor eu desligar e pular alguns dias da minha nanovida, porque as coisas andam muito tediosas. Tá tudo muito fácil.
- Hu! Que mente brilhante. Vocês fazem nanossexo também?
- Tá vendo como a curiosidade é incontrolável!? Não fazemos não, agora é tudo artificial, feito em laboratório. E pra quem quer prazer, basta comprar um capacete orgasmatrônico.
- Dá licença, agora chega, vou desligar.
- Como quiser.
- Ah, só mais uma pergunta. Por quê São Paulo vai deixar de existir?
- Questão de segurança pública. Será evacuada. Muitas pessoas começarão a ter doenças raras, causadas talvez pela poluição de um rio. Não lembro bem.
- Boa idéia.
- Não vamos perder contato, me dá seu nanofone.
- 8175-7397
- O meu é 87xt6h54z. Anotou?
- Ah, cara. Sinceramente, perdeu a graça. Nem sei o que fiz aqui esse tempo todo ouvindo essas baboseiras.
- Tudo bem. Se é assim. Tenho mesmo que ir, meu José de Alencar é de seis em seis horas. Nanoadeus, meu amigo!
- !*&@#%*&!@!
[…]
Zé desligou o telefone, riu e nunca mais perdeu tempo. Hoje, sempre que possÃvel, vai a teatros, museus e bibliotecas, aproveitando enquanto ainda pode as delÃcias das sensações humanas. Afinal, ainda não temos nanocabeças.
Essa história é fictÃcia e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Aliás, coincidência boa seria que também aproveitássemos melhor nosso tempo, por exemplo, buscando ir a uma das duas apresentações únicas de João Gilberto em São Paulo, comemorando os 50 anos da Bossa Nova, em meados de agosto.
| Victor Hugo Fernandes Cremasco é graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, músico e estagiário na área de cinema e teatro. |

Gostariamos que a passagem acima continue uma mera ficção , e que se mantenha ainda muito longe de uma possivel realidade , para que não se altere a essência real das realizações , para não apenas sejam vistas ou vagamente interpretadas ,mas nao deixar de sentir as sensações transmitidas .
Comentário de Carlos Eduardo da Costa — 22 Abril, 2008 @ 1:25 am
Fantástico o texto
Comentário de Mariana — 4 Maio, 2008 @ 5:45 pm
muito bom.
Comentário de MarÃlia — 10 Maio, 2008 @ 10:14 pm